Paulo estava animado naquele dia. Depois que soube que o governador tinha
resolvido não decretar lockdown, ele partiu em direção ao Espigão Costeiro, seu
ponto cativo e ele sabia que aquele fim de semana seria lucrativo; todo mundo
queria passear e sentir o vento no rosto. E ele conseguiu um bom lucro nesse fim
de semana, o que o incentivou a novas incursões para venda de seus balões
coloridos. Era isso que sustentava a família dele, depois do baque da morte da
companheira na Páscoa de 2020. Disseram que era "corona", mas tudo era corona
naqueles tempos e ele achou que isso era besteira de político.
Nesses tempos estranhos ele se animava com as duas filhas, uma de 13 e outra de
10, que eram bastante aplicadas na escola. A mais velha, Luzia, tinha até
conseguido o primeiro lugar no Concurso de Redação Escolar e tinha um blog, onde
mostrava as principais mazelas do seu bairro e sua cidade. Enquanto isso,
Cristina era o modelo da menina avoada, que transitava entre o fim do reinado de
suas bonecas e os primeiros flertes dos meninos.
-- Meninas, eu acho que vou
começar a tentar vender em outros locais, o Espigão tá bom de venda mas eu soube
que o governo tá cadastrando mais vendedores para venderem nos parques. Eu tô
pensando em começar no Rangedor e diversificar pra balões metálicos, são caros
mas se pagam. -- Pai, não precisa. A gente segura as pontas por aqui; não tem
necessidade de fazer mais dinheiro agora, com a COVID-19 em ritmo de alta.
Aquele prêmio que eu consegui ano passado no Concurso ainda não foi gasto e não
temos exageros aqui em casa. Por favor, sossega, velho! -- Tu ainda acredita
nessas besteiras? Eu já tô com a licença de venda encaminhada e começo na quarta
mesmo; não tem problema nenhum.
Oito dias depois, Paulo comemorava que as vendas
estavam indo bem. O investimento nos balões metálicos deu certo, sua saída tava
sendo maior que as dos balões tradicionais, mesmo sendo dois reais mais caro. A
única coisa que estava encafifando Paulo era uma tosse chata, que não diminuía
com lambedor e nem xarope de farmácia. "Vou voltar mais cedo pra casa. Tenho que
descansar".
Luzia batia nervosamente na porta de sua vizinha e parecia que não
havia ninguém por lá. Depois de um tempo quase infinito, dona Cleide aparece à
porta. -- Dona Cleide, eu preciso que seu marido nos ajude. Preciso de uma
carona pro hospital; meu pai não tá conseguindo respirar. -- Claro, claro! Deixa
eu pegar a chave. Cleide enconstou o carro e foram necessários quatro homens
para conseguir deslocar o vendedor para o Ka 97. Depois de um tempo chegam ao
Hospital de Referência Covid (HRC) e os maqueiros rapidamente o levaram para
dentro. Duas horas depois, Paulo era intubado. Luzia queria ficar lá, esperando,
mas Cleide a convenceu a voltar pra casa. Cristina estava só e precisava da irmã
para ter forças naqueles dias que viriam.
********
Na missa de sétimo dia de
Paulo, muitos parentes -- alguns que há mais de vinte anos não apareciam em São Luís --
estavam lá e logo percebiam que Paulo havia deixado duas bocas para serem
alimentadas; poucos desses parentes ausentes teriam condições e paciência para
abarcarem mais problemas para si nestes tempos. Poucos, mas não nenhum...
Luzia só conhecia tio Beto de fotos amareladas no álbum e que ele morava em
algum lugar do Pará. E foi o tio Beto, aparentando ter muitas posses no estado cabano,
que convidou Luzia e Cristina para sua casa. Dizendo ele que era uma casa bem
grande, perto do garimpo, e que lá elas fariam amizade com muitas garotas bonitas como elas.
#ficaEmCasa-K_rai
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99 Luftballons
Paulo estava animado naquele dia. Depois que soube que o governador tinha resolvido não decretar lockdown, ele partiu em direção ao Espigão ...
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Amigos, faço parte da AMADA e lá sempre estamos necessitando de tudo: medicamentos, mão-de-obra, materiais para construir/reformar os gatis...
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Paulo estava animado naquele dia. Depois que soube que o governador tinha resolvido não decretar lockdown, ele partiu em direção ao Espigão ...