14/03/2021

99 Luftballons

Paulo estava animado naquele dia. Depois que soube que o governador tinha resolvido não decretar lockdown, ele partiu em direção ao Espigão Costeiro, seu ponto cativo e ele sabia que aquele fim de semana seria lucrativo; todo mundo queria passear e sentir o vento no rosto. E ele conseguiu um bom lucro nesse fim de semana, o que o incentivou a novas incursões para venda de seus balões coloridos. Era isso que sustentava a família dele, depois do baque da morte da companheira na Páscoa de 2020. Disseram que era "corona", mas tudo era corona naqueles tempos e ele achou que isso era besteira de político.
Nesses tempos estranhos ele se animava com as duas filhas, uma de 13 e outra de 10, que eram bastante aplicadas na escola. A mais velha, Luzia, tinha até conseguido o primeiro lugar no Concurso de Redação Escolar e tinha um blog, onde mostrava as principais mazelas do seu bairro e sua cidade. Enquanto isso, Cristina era o modelo da menina avoada, que transitava entre o fim do reinado de suas bonecas e os primeiros flertes dos meninos.
-- Meninas, eu acho que vou começar a tentar vender em outros locais, o Espigão tá bom de venda mas eu soube que o governo tá cadastrando mais vendedores para venderem nos parques. Eu tô pensando em começar no Rangedor e diversificar pra balões metálicos, são caros mas se pagam. -- Pai, não precisa. A gente segura as pontas por aqui; não tem necessidade de fazer mais dinheiro agora, com a COVID-19 em ritmo de alta. Aquele prêmio que eu consegui ano passado no Concurso ainda não foi gasto e não temos exageros aqui em casa. Por favor, sossega, velho! -- Tu ainda acredita nessas besteiras? Eu já tô com a licença de venda encaminhada e começo na quarta mesmo; não tem problema nenhum.
Oito dias depois, Paulo comemorava que as vendas estavam indo bem. O investimento nos balões metálicos deu certo, sua saída tava sendo maior que as dos balões tradicionais, mesmo sendo dois reais mais caro. A única coisa que estava encafifando Paulo era uma tosse chata, que não diminuía com lambedor e nem xarope de farmácia. "Vou voltar mais cedo pra casa. Tenho que descansar".
Luzia batia nervosamente na porta de sua vizinha e parecia que não havia ninguém por lá. Depois de um tempo quase infinito, dona Cleide aparece à porta. -- Dona Cleide, eu preciso que seu marido nos ajude. Preciso de uma carona pro hospital; meu pai não tá conseguindo respirar. -- Claro, claro! Deixa eu pegar a chave. Cleide enconstou o carro e foram necessários quatro homens para conseguir deslocar o vendedor para o Ka 97. Depois de um tempo chegam ao Hospital de Referência Covid (HRC) e os maqueiros rapidamente o levaram para dentro. Duas horas depois, Paulo era intubado. Luzia queria ficar lá, esperando, mas Cleide a convenceu a voltar pra casa. Cristina estava só e precisava da irmã para ter forças naqueles dias que viriam.
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Na missa de sétimo dia de Paulo, muitos parentes -- alguns que há mais de vinte anos não apareciam em São Luís -- estavam lá e logo percebiam que Paulo havia deixado duas bocas para serem alimentadas; poucos desses parentes ausentes teriam condições e paciência para abarcarem mais problemas para si nestes tempos. Poucos, mas não nenhum... Luzia só conhecia tio Beto de fotos amareladas no álbum e que ele morava em algum lugar do Pará. E foi o tio Beto, aparentando ter muitas posses no estado cabano, que convidou Luzia e Cristina para sua casa. Dizendo ele que era uma casa bem grande, perto do garimpo, e que lá elas fariam amizade com muitas garotas bonitas como elas.
#ficaEmCasa-K_rai

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